Esse blog tem como objetivo ampliar o conhecimento sobre o assunto Exercício Físico e Cérebro, a partir de informações publicadas em revistas científicas

domingo, 28 de março de 2010

Atividade X Sedentarismo: interação do sistema dopaminérgico

                    

           Os benefícios do exercício físico TODO MUNDO sabe: emagrecimento, qualidade de vida, bem-estar, prevenção de doenças, condicionamento... Mas aí, vem preguiça, desculpas, e acabamos deixando para o outro dia. Isso é comum, por vários motivos, existem dias que o corpo está anti-esforço. No entanto, existem pessoas completamente inativas, que não sentem vontade e ânimo para praticar qualquer atividade física. Só praticam levantamento de garfo, copo, e flexão e extensão dos dedos para mexer no controle remoto. Mas, existe uma explicação científica pra isso?
             Uma artigo recente***, publicado no International Journal of biological sciences, diz que sim!!!! Segundo os autores esse comportamento é explicado por uma interação gene + ambiente. Para eles, componentes genéticos/ biológicos que regulam a prática de atividade físicas são explicados por mecanismos periféricos (tipo de fibra, número de mitocôndrias, componentes do metabolismo celular, consumo de oxigênio, etc) e mecanismos centrais ( sinalização celular, neurotransmissores, comportamento motivacional, etc).  Estudos com ratos mostraram que não só os componentes periféricos podem diferir os ratos de raças mais ativas das sedentárias, como também, fatores centrais. Aqueles de raça mais ativa tem maiores níveis de fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF). Nesses ratos são encontradas diferentes respostas de exercício físico após a administração de agonistas e antagonistas de dopamina.
                A dopamina está associada com recompensa, motivação, controle do movimento motor, aprendizado e emoção. Características que levam o sistema dopaminérgico a um forte candidato para o controle da atividade física voluntária. Entretanto, os estudos com humanos, investigam a dopamina como uma conseqüência da atividade física, ou seja, sua liberação após o exercício físico. A hipótese desses pesquisadores, baseia-se no sistema dopaminérgico como uma variável independente e não dependente do exercício. Os neurônios dopaminérgicos do cérebro originam-se em duas áreas distintas: substância nigra com projeção para o estriado, via tracto nigroestriatal e área tegmental ventral com projeções para o córtex e núcleo acumbente, via tracto mesolímbico. O primeiro está associado com a locomoção e o segundo com a motivação. Para os autores esse sistema mesolímbico pode ser o componente genético que irá determinar as características motivacionais dos indivíduos ativos e sedentários. Como ilustrado no esquema abaixo:


Ainda são necessários diversas pesquisas para confirmar essa hipótese. Só não pode usar isso como desculpa para ficar no sedentarismo. Aí não dá...


***Knab and Lightfoot (2010) "Does the difference between physically active and couch potato lie in dopamine system? International journal of biological science 6(2): 133-150.

terça-feira, 23 de março de 2010

Vida de estudante ou desabafo...

.......Nossa! Quanto tempo que eu não escrevo NADA!!! Bom, não escrevo aqui pq é tanto projeto, artigo, tese, prova...Que o blog fica pra depois! Resolvi, então, escrever sobre a vida de doutoranda. Não é fácil. Muitas vezes dá vontade de desisitir pois não é como uma simples pós. É muita ralação, muita coisa pra estudar, pra aprender.. É a política da faculdade, o artigo que não é aceito, os comentários dos revisores.. O problema é que não é só isso, EXISTE VIDA FORA DO DOUTORADO!!! Trabalhar, namorar, passear, ver a família, cuidar da casa, do marido! Aff!!!! Mas, no final, tudo compensa. Quando vc recebe uma boa nota da prova, quando é aprovada com louvor, quando recebe um elogio do orientador ou dos alunos de iniciação científica. É quando vc olha pra trás e vê o quanto vc aprendeu e o quanto cresceu!
Esse post é destinado à todos os alunos que trabalham com pesquisa, seja alunos de mestrado ou iniciação científica.
Afinal, como Einsten dizia, só há um lugar onde o sucesso vem antes do trabalho: no dicionário!!!

Abraços

sábado, 12 de setembro de 2009

É tudo culpa da endorfina?




No final dos anos 60, o termo "o barato do exercício" (do inglês runner's high ) foi introduzido para definir as transformações psicológicas causadas por uma corrida. Esses efeitos foram relatados como felicidade, euforia, motivação, diminuição da dor e ( que viagem!) uma sensação de unidade entre o indivíduo e o seu ser interior. Para a explicação desse fenômeno, os pesquisadores voltaram-se para a hipótese da endorfina. Até que todas as pesquisas realizadas não foram capazes de substanciar essa hipótese. Alguns estudos não observaram aumento na concentracão plasmática de endorfina, enquanto outros não observaram associação entre a concentração de endorfina plasmática e a melhora no humor após uma sessão de exercícios. A questão que mais intrigava era se a concentração de endorfina plasmática refletia a endorfina central.
Recentes estudos de neuroimagens usando tomografia por emissão de pósitrons e um ligante específico para endorfina avaliaram se 10 atletas, depois de um exercício extenuante ,poderia m apresentar alterações nos receptores de endorfina. Ou seja, funciona assim: se os ligantes marcados injetados antes do exercício apresentassem menor ligação com os receptores de enfdorfina após o exercício, isso significa que houve um aumento na liberação endógena de endorfina.




.. E isso realmente ocorreu em áreas do circuito emocional (circuito fronto-limbico) que tem conexões com múltiplas áreas que estão envolvidas na função cognitiva e em processos emocioinais, motores e sensoriais. O efeito da endorfina no cérebro é análogo a heroína e a morfina, ou seja, drogas exógenas que ativam as vias dopaminérgicas mesolímbica e mesocortical, que afetam as sensações de recompensa e prazer.


Até aí tudo bem, porém.. (sempre tem um porém). Um outro estudo, utilizando a mesma técnica não observou alterações significativas no sistema dopaminérgico após 30 minutos de corrida em esteira. Esses resultados não confirmaram o "vício" causado pelo exercício, apesar de outros estudos terem afirmado o ocorrido através de escalas validadas e através de observação em ratos.


Bom, resultado final: correr faz bem, libera endorfina e não vicia - quimicamente falando- ( ou até que provem o contrário)!

domingo, 30 de agosto de 2009

Exercício e saúde mental: muitas razões para se movimentar







Um recente estudo publicado na Neuropsychobiology pelo nosso grupo de pesquisadores, analisou vários estudos que investigaram o efeito do exercício na saúde mental. Além de discutir de forma muito inteligente todos os estudos revisados, a pós doutoranda Andréa Deslandes (primeira autora do estudo), sugeriu hipóteses neuropsicológicas, com embasamento científico, para explicar os efeitos do exercício. Para a depressão, o exercício aeróbio de intensidade moderada pode produzir efeitos significativos na redução de sintomas de pacientes diagnosticado com depressão maior leve a moderada. Poucos estudos investigaram o efeito do exercício na doença de Alzheimer, parece que o exercício é eficaz no tratamento dos sintomas da doença, melhorando a qualidade de vida do paciente. Entretanto, ainda não se sabe se o exercício é efetivo como protetor na incidência da doença. Já para a doença de Parkinson, o exercício físico pode produzir significantes efeitos na melhora da força, do equilíbrio e na redução de queda, promovendo maior independência no desempenho das tarefas diárias dos doentes.
Todas essas alterações físicas emitem efeitos benéficos tanto para a depressão quanto para o Parkinson e Alzheimer. Mas, e os efeitos no cérebro???Será que ocorrem alterações no cérebro desses indivíduos, melhorando ou mesmo prevenindo uma doença mental??
Bom, as pesquisas sugerem que sim.. O efeito protetor para as doenças pode ser explicado pela liberação de neurotransmissores, fatores tróficos, endorfinas, endocabinóides. Outras hipóteses seriam a neurogênese a angiogênese...
Não vou entrar em detalhes do artigo, se quiser saber mais busque: Exercise and mental Helath: many reasons to move. neuropsychobiology 2009;59:191–198
Lá você pode ver mais na teoria..
Se quiser ver na prática PODE IR CALÇANDO O TÊNIS...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Colocando o cérebro em forma!!!





















É isso mesmo... Um artigo recente publicado na Journal of science and medicine in sport (por um grupo de pesquisadores da UNICAMP) comparou o volume de matéria cinzenta no cérebro de indivíduos atletas de judô e controles. O objetivo era investigar as transformações na densidade cerebral em áreas corticais associadas com habilidades motoras ocorridas com a prática de judô. O resultado foi mais que o esperado: os atletas apresentaram maior volume em regiões do lobo frontal relacionada com o planejamento e execução de ações, memória de trabalho e funcões cognitivas, e áreas parietais e occipitais associadas com raciocínio lógico e processos visuais. Além disso, maior densidade em áreas paralímbicas observadas no atletas, estão associads com memória e aprendizado. A grande questão dos pesquisadores, na interpretação desses resultados, foi concluir se essas alterações podem refletir as demandas impostas pelas tarefas motoras em regiões específicas do córtex relacionadas com a especificidade do exercício ou se essas diferenças podem ser consequências de alterações no metabolismo cerebral, no fluxo sanguíneo cortical e liberações de fatores tróficos do cérebro.

Problemas metodológicos à parte... Um artigo de 2006 observou as alterações no volume cortical após 6 meses de treinamento com exercícios aeróbios, exercícios de força ou alongamentos em idosos. Somente o grupo que realizou exercício aeróbio apresentou aumento significativo no volume do córtex cingulado anterior, área motora suplementar, giro frontal inferior, giro temporal e no centro branco medular do cérebro. O interessante foi que nesse estudo também foi incluído um grupo de jovens que também realizaram as mesmans intervenções com exercícios aeróbios. No entanto, para esse grupo não foram observas alterações significativas no volume de nenhum área cerebral.



Questões para pensar:

O esporte com um componente cognitivo (como o judô, por exemplo) pode propiciar mais beneficíos para áreas específicas do córtex associadas às funções cognitivas comparado a exercícios aeróbios?


O exercício aeróbio, promovendo alterações mais globais no cérebro associados a neurogênese e a plasticidade cortical, pode ser mais benéfico para os idosos?






Futuras pesquisas poderão responder essas questões analisando diferentes grupos com diversos tipos de exercícios através de análises longitudinais.

Por enquanto, se quiser um conselho:
Não brigue com o seu filho se ele matar aula para ir surfar ou jogar bola... Pode fazer bem para o cérebro dele...





segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio e a verdade me é revelada




Se Einstein estivesse vivo eu poderia sugerir que ele aumentasse a intensidade de suas pedaladas entre a solução de um problema e outro. Ele não precisaria mergulhar em um profundo silêncio, basta a prática de um exercício aeróbio ( de intensidade moderada) durante 30 minutos e ele já poderia ter rapidamente a solução de todos as suas (brilhantes) descobertas. Um artigo publicado na Brain and Cognition em 2004 examinou a possibilidade que o exercício interfere em diferentes tipos de cognição. Essa hipótese intitulada Hipótese da hipofrontalidade, sugere que durante o exercício há um redirecionamento do fluxo sanguíneo cerebral para áreas motoras. Já que essa é uma área de maior demanda durante o exercício pode haver uma diminuição ( relativa) de fluxo sanguíneo e de metabolismo para áreas de menores demandas (como áreas relacionadas às funções cognitivas). Nesse estudo de 2004, os pesquisadores observaram uma redução no desempenho de tarefas de raciocínio lógico e atenção concentrada, enquanto tarefas de memória permaneceram inalteradas. Outra hipótese psicológica para explicar o benefício da corrida para pacientes com depressão é a hipótese da distração. Ao exercitar-se (claro que uma atividade prazerosa), o indivíduo depressivo para de pensar nos problemas que os afligem, diminuindo a preocupação excessiva com pequenos problemas cotidianos. Assim, para solucionar qualquer problema, vá correr. Uma corrida de intensidade moderada durante 30 minutos pode fazer você esquecer dos seus problemas. Ao retornar da corrida terá a solução... Conclusão científica e psicológica :)

domingo, 9 de agosto de 2009

Atrofia hipocampal ou “se se morre de amor”


Quem nunca sofreu uma grande paixão? Para quem não sabe, sofrer é sentir o coração bater mais rápido na presença do outro (a), um frio na barriga, uma respiração ofegante... Noites mal dormidas, perda do apetite. Pensando assim, pode-se concluir que a paixão é estressante tanto para o corpo quanto para a mente. Ficar noites pensando se “ele vai ligar” ou “por que ele não ligou?”, e ainda “será que devo ligar”.. Conseqüentemente, o cérebro também sofre. Isso porque o estresse é comandado pelo sistema hipotálamo-hipófise-adrenal. Do córtex adrenal é liberado o hormônio cortisol. Esse hormônio viaja pela corrente sangüínea até o cérebro e liga-se a receptores citoplasmáticos de muitos neurônios. Os receptores ativos promovem a transcrição gênica e, por conseqüência, a síntese protéica. Uma das conseqüências da ação do cortisol é que mais cálcio entrará nos neurônios através de canais iônicos dependentes de voltagem. Assim, o cortisol pode desencadear, em curto prazo, mudanças que tornam o encéfalo apto a lidar com o estresse. Talvez até ele encontre uma maneira de evitá-lo. Essa é a explicação química, mas isso você já sabe quando diz: “Dessa vez não vou me apaixonar, não vou me iludir, não vou ficar em casa esperando..”. Digamos que essa seria uma explicação mais prática!
Por outro lado, os receptores de cortisol estão presentes não só no hipotálamo. Sim, porque no hipotálamo eles regulam a liberação de cortisol pela adrenal. Ou seja, ocorre um feedback negativo, desativando o eixo hipotálamo-hipófise adrenal. Quando liberado demasiadamente, podemos dizer quando a paixão é avassaladora, o cortisol liga-se a vários receptores presentes no encéfalo, sobretudo hipocampais. Nessas situações de estresse crônico, os neurônios se sobrecarregam de cálcio. Assim, os neurônios morrem por excitotoxidade e é esse efeito direto que lesiona o hipocampo. Alguns estudos comprovam que esses efeitos assemelham-se ao processo de envelhecimento do encéfalo. Pobre hipocampo...
Conclusão da história: Para evitar o envelhecimento do cérebro, cientistas revelam que é necessário aumentar consumo de vitamina E, ômega 3 e flavonóides; praticar exercícios físicos, exercitar a memória...
Coloca mais um na listinha: - Coração: não se apaixone!
Para saber mais: "Neurociências - desvendando o sistema nervoso (Bear,M; Connors, B; Paradiso, M)