Esse blog tem como objetivo ampliar o conhecimento sobre o assunto Exercício Físico e Cérebro, a partir de informações publicadas em revistas científicas

domingo, 30 de agosto de 2009

Exercício e saúde mental: muitas razões para se movimentar







Um recente estudo publicado na Neuropsychobiology pelo nosso grupo de pesquisadores, analisou vários estudos que investigaram o efeito do exercício na saúde mental. Além de discutir de forma muito inteligente todos os estudos revisados, a pós doutoranda Andréa Deslandes (primeira autora do estudo), sugeriu hipóteses neuropsicológicas, com embasamento científico, para explicar os efeitos do exercício. Para a depressão, o exercício aeróbio de intensidade moderada pode produzir efeitos significativos na redução de sintomas de pacientes diagnosticado com depressão maior leve a moderada. Poucos estudos investigaram o efeito do exercício na doença de Alzheimer, parece que o exercício é eficaz no tratamento dos sintomas da doença, melhorando a qualidade de vida do paciente. Entretanto, ainda não se sabe se o exercício é efetivo como protetor na incidência da doença. Já para a doença de Parkinson, o exercício físico pode produzir significantes efeitos na melhora da força, do equilíbrio e na redução de queda, promovendo maior independência no desempenho das tarefas diárias dos doentes.
Todas essas alterações físicas emitem efeitos benéficos tanto para a depressão quanto para o Parkinson e Alzheimer. Mas, e os efeitos no cérebro???Será que ocorrem alterações no cérebro desses indivíduos, melhorando ou mesmo prevenindo uma doença mental??
Bom, as pesquisas sugerem que sim.. O efeito protetor para as doenças pode ser explicado pela liberação de neurotransmissores, fatores tróficos, endorfinas, endocabinóides. Outras hipóteses seriam a neurogênese a angiogênese...
Não vou entrar em detalhes do artigo, se quiser saber mais busque: Exercise and mental Helath: many reasons to move. neuropsychobiology 2009;59:191–198
Lá você pode ver mais na teoria..
Se quiser ver na prática PODE IR CALÇANDO O TÊNIS...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Colocando o cérebro em forma!!!





















É isso mesmo... Um artigo recente publicado na Journal of science and medicine in sport (por um grupo de pesquisadores da UNICAMP) comparou o volume de matéria cinzenta no cérebro de indivíduos atletas de judô e controles. O objetivo era investigar as transformações na densidade cerebral em áreas corticais associadas com habilidades motoras ocorridas com a prática de judô. O resultado foi mais que o esperado: os atletas apresentaram maior volume em regiões do lobo frontal relacionada com o planejamento e execução de ações, memória de trabalho e funcões cognitivas, e áreas parietais e occipitais associadas com raciocínio lógico e processos visuais. Além disso, maior densidade em áreas paralímbicas observadas no atletas, estão associads com memória e aprendizado. A grande questão dos pesquisadores, na interpretação desses resultados, foi concluir se essas alterações podem refletir as demandas impostas pelas tarefas motoras em regiões específicas do córtex relacionadas com a especificidade do exercício ou se essas diferenças podem ser consequências de alterações no metabolismo cerebral, no fluxo sanguíneo cortical e liberações de fatores tróficos do cérebro.

Problemas metodológicos à parte... Um artigo de 2006 observou as alterações no volume cortical após 6 meses de treinamento com exercícios aeróbios, exercícios de força ou alongamentos em idosos. Somente o grupo que realizou exercício aeróbio apresentou aumento significativo no volume do córtex cingulado anterior, área motora suplementar, giro frontal inferior, giro temporal e no centro branco medular do cérebro. O interessante foi que nesse estudo também foi incluído um grupo de jovens que também realizaram as mesmans intervenções com exercícios aeróbios. No entanto, para esse grupo não foram observas alterações significativas no volume de nenhum área cerebral.



Questões para pensar:

O esporte com um componente cognitivo (como o judô, por exemplo) pode propiciar mais beneficíos para áreas específicas do córtex associadas às funções cognitivas comparado a exercícios aeróbios?


O exercício aeróbio, promovendo alterações mais globais no cérebro associados a neurogênese e a plasticidade cortical, pode ser mais benéfico para os idosos?






Futuras pesquisas poderão responder essas questões analisando diferentes grupos com diversos tipos de exercícios através de análises longitudinais.

Por enquanto, se quiser um conselho:
Não brigue com o seu filho se ele matar aula para ir surfar ou jogar bola... Pode fazer bem para o cérebro dele...





segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio e a verdade me é revelada




Se Einstein estivesse vivo eu poderia sugerir que ele aumentasse a intensidade de suas pedaladas entre a solução de um problema e outro. Ele não precisaria mergulhar em um profundo silêncio, basta a prática de um exercício aeróbio ( de intensidade moderada) durante 30 minutos e ele já poderia ter rapidamente a solução de todos as suas (brilhantes) descobertas. Um artigo publicado na Brain and Cognition em 2004 examinou a possibilidade que o exercício interfere em diferentes tipos de cognição. Essa hipótese intitulada Hipótese da hipofrontalidade, sugere que durante o exercício há um redirecionamento do fluxo sanguíneo cerebral para áreas motoras. Já que essa é uma área de maior demanda durante o exercício pode haver uma diminuição ( relativa) de fluxo sanguíneo e de metabolismo para áreas de menores demandas (como áreas relacionadas às funções cognitivas). Nesse estudo de 2004, os pesquisadores observaram uma redução no desempenho de tarefas de raciocínio lógico e atenção concentrada, enquanto tarefas de memória permaneceram inalteradas. Outra hipótese psicológica para explicar o benefício da corrida para pacientes com depressão é a hipótese da distração. Ao exercitar-se (claro que uma atividade prazerosa), o indivíduo depressivo para de pensar nos problemas que os afligem, diminuindo a preocupação excessiva com pequenos problemas cotidianos. Assim, para solucionar qualquer problema, vá correr. Uma corrida de intensidade moderada durante 30 minutos pode fazer você esquecer dos seus problemas. Ao retornar da corrida terá a solução... Conclusão científica e psicológica :)

domingo, 9 de agosto de 2009

Atrofia hipocampal ou “se se morre de amor”


Quem nunca sofreu uma grande paixão? Para quem não sabe, sofrer é sentir o coração bater mais rápido na presença do outro (a), um frio na barriga, uma respiração ofegante... Noites mal dormidas, perda do apetite. Pensando assim, pode-se concluir que a paixão é estressante tanto para o corpo quanto para a mente. Ficar noites pensando se “ele vai ligar” ou “por que ele não ligou?”, e ainda “será que devo ligar”.. Conseqüentemente, o cérebro também sofre. Isso porque o estresse é comandado pelo sistema hipotálamo-hipófise-adrenal. Do córtex adrenal é liberado o hormônio cortisol. Esse hormônio viaja pela corrente sangüínea até o cérebro e liga-se a receptores citoplasmáticos de muitos neurônios. Os receptores ativos promovem a transcrição gênica e, por conseqüência, a síntese protéica. Uma das conseqüências da ação do cortisol é que mais cálcio entrará nos neurônios através de canais iônicos dependentes de voltagem. Assim, o cortisol pode desencadear, em curto prazo, mudanças que tornam o encéfalo apto a lidar com o estresse. Talvez até ele encontre uma maneira de evitá-lo. Essa é a explicação química, mas isso você já sabe quando diz: “Dessa vez não vou me apaixonar, não vou me iludir, não vou ficar em casa esperando..”. Digamos que essa seria uma explicação mais prática!
Por outro lado, os receptores de cortisol estão presentes não só no hipotálamo. Sim, porque no hipotálamo eles regulam a liberação de cortisol pela adrenal. Ou seja, ocorre um feedback negativo, desativando o eixo hipotálamo-hipófise adrenal. Quando liberado demasiadamente, podemos dizer quando a paixão é avassaladora, o cortisol liga-se a vários receptores presentes no encéfalo, sobretudo hipocampais. Nessas situações de estresse crônico, os neurônios se sobrecarregam de cálcio. Assim, os neurônios morrem por excitotoxidade e é esse efeito direto que lesiona o hipocampo. Alguns estudos comprovam que esses efeitos assemelham-se ao processo de envelhecimento do encéfalo. Pobre hipocampo...
Conclusão da história: Para evitar o envelhecimento do cérebro, cientistas revelam que é necessário aumentar consumo de vitamina E, ômega 3 e flavonóides; praticar exercícios físicos, exercitar a memória...
Coloca mais um na listinha: - Coração: não se apaixone!
Para saber mais: "Neurociências - desvendando o sistema nervoso (Bear,M; Connors, B; Paradiso, M)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

TPM: como chocolate ou faço exercicio?

Nosssa, hj eu acordei com disposição zero! Não queria levantar, nem trabalhar, nem me arrumar.. Só queria ficar em casa, sozinha, sem falar com ninguém.. Mas uma coisa eu queria fazer ( e fiz!!): comer doce! Chocolate, biscoito.. Até nescau eu tomei!! À tarde, depois que devorei um pacote de biscoitos... Fiquei mais “felizinha”J !
Essa enoorme vontade de comer doce acontece, normalmente, no período pré-menstrual. Nesse período, há um déficit na liberação de serotonina. A serotonina é um neurotransmissor que atua no núcleo ventro-medial do hipocampo (responsável pela saciedade e pela vontade de comer doces). Durante o período pré-menstrual ocorre uma diminuição do estrogênio e, embora ainda não se tenha descoberto o mecanismo, essa diminuição provoca o déficit de serotonina. De forma inteligente, o nosso organismo pede DOCE! Os doces são ricos em triptofano (aminoácido precursor da serotonina). Existem outros alimentos, mais saudáveis, que também são ricos de triptofano. Mas por que nós não procuramos por eles nesses momentos?? Não seria mais saudável comer bananas ou um copo de leite??
Bom, o mais importante é que existe outro meio de ofertarmos nosso cérebro com uma boa dose de serotonina... Exercício físico! Durante o exercício os aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) são capturados pelo músculo para serem utilizados como fonte de energia. Os BCAAs competem com o triptofano para atravessar a barreira hematoencefálica. Então, já que os BCAAs estão sendo conduzidos para o músculo, ocorre uma diminuição na competição pela passagem do sangue para o cérebro. Outro mecanismo que ocorre durante o exercício é o aumento da mobilização de ácidos graxos livres (AGL) para fins energéticos. O triptofano (também) compete com os AGLs para ligar-se a albumina (proteína transportadora) e serem transportados pelo sangue. Como a albumina possui mais afinidade com os AGLs, a concentração de triptofano livre é aumentada. Assim, o aumento na quantidade de triptofano a com passagem livre para o cérebro são capazes de promover o aumento na produção de serotonina durante o exercício. Portanto: triptofano: grande competidor! Mas quem ganha somos nós! Oba, serotonina!!! Mais uma vez o exercício venceu! Conclusão: NA TPM, VÁ CORRER!!! O RESULTADO SERÁ MELHOR DO QUE COMER CHOCOLATE!
Para saber mais: Rossi, L; Tirapegui, J. Implicações do sistema serotoninérgico no exercíciofísico. Arquivos Brasileiros de endocrinologia e metabologia. 2004

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O exercício e a atividade elétrica cortical




O eletroencefalograma (EEG) é uma ferramenta que mede a atividade elétrica cortical. Com isso, é utilizada em muitas pesquisas para verificar as transformações ocorridas no córtex após o exercício. Nós realizamos um estudo com 10 sujeitos jovens e ativos com idade de 21 a 30 anos. Esses jovens foram submetidos a um exame de EEG antes e após o exercício físico até a exaustão. O nosso objetivo foi verificar quais as transformações que poderiam ocorrer no EEG após o exercício. Os resultados indicaram um aumento significativo na potência da banda de frequência beta em eletrodos situados em áreas frontais e centrais. Isso significa um aumento na atividade cortical nessas áreas. A maioria dos estudos que analisaram o EEG após o exercício agudo encontraram aumento de outra banda de frequência do EEG, a banda alfa. Uma aumento na potência da banda alfa significa o oposto da beta, ou seja, diminuição da atividade cortical. Embora nossos resultados tenham sido diferentes daqueles encontrados na maioria dos estudos, ainda não há um consenso na literatura. Alguns estudos também encontraram alterações em beta e em outras bandas de frequência. Além disso, a metodologia utilizada na prescrição do exercício (como intensidade e tipo do exercício) também podem influenciar nos resultados. Alterações no EEG também podem estar associadas a alterações na temperatura corporal. A explicaçào para essas modificações ainda não são conclusivas e podem estar associadas com uma diminuição no estado de ansiedade, tensão física e emocional e, ainda, alterações no fluxo sanguineo e metabolismo cerebral. No entanto, muitos estudos ainda precisam ser realizados e replicados para respaldar esses resultados. O mais importantante, portanto, é saber que uma única sessão de exercício aeróbio pode promover alterações significativas no cérebro. Ou seja, mais um motivo para exercitar-se :)
* Para saber mais:
Moraes H; Camila F;Deslandes A; Cagy M; Pompeu F; Ribeiro P; Piedade
Beta and alpha electroencephalographic activity changes after acute exercise.
Arq Neuropsiquiatr 2007; 65:637-641
www.scielo.br

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O exercício físico e a depressão em idosos


A depressão é um transtorno de humor com características físicas, cognitivas e emocionais. Estudos epidemiológicos apresentaram resultados de alta prevalência de depressão na população idosa. Isso se deve a alterações, provenientes do envelhecimento, relacionadas à redução das valências físicas (como perda de força, agilidade, velocidade motora) levando o idoso à dependência nas atividades de vida diária; piora no desempenho cognitivo devido a alterações neurofisiológicas ou, até mesmo, devido a um redirecionamento do foco de atenção para pensamentos pessimistas, emoções e episódios negativos. Além disso, a solidão e a morte de pessoas queridas são fatores externos que podem desencadear um episódio depressivo, sobretudo no idoso. Assim, além do tratamento medicamentoso, outras terapias complementares são utilizadas para o tratamento da depressão. Dessas terapias adicionais, uma das mais completas é a prática de exercícios físicos. Com a prática, o idoso pode beneficiar-se tanto de alterações fisiológicas quanto neurais. Modificações significativas no sistema músculo-esquelético e cardiorrespiratório podem propiciar uma melhora na qualidade de vida com autonomia no desempenho das atividades de vida diária. Essas alterações também podem levar a melhora na auto-estima. Além disso, o exercício físico promove alterações no sistema de neurotrasmissores, na atividade cortical, na formação de novos neurônios e na plasticidade neuronal. Todos esses efeitos também são encontrados como resposta aos antidepressivos e estão associados à melhora no bem-estar e redução dos sintomas de ansiedade e depressão. O exercício praticado em grupo também pode ser benéfico devido a sociabilização, no entanto, os estudos mostraram que tanto o exercício físico praticado em grupo quanto o exercício individual podem promover melhora significativa nos sintomas depressivos. As conclusões dos estudos mostraram que esses resultados podem estar mais associados a exercícios aeróbios praticados com intensidade moderada e com maior freqüência semanal.

*** Para saber mais:

Helena Moraes, Andréa Deslandes, Camila Ferreira, Fernando A. M. S. Pompeu, Pedro ibeiro, Jerson Laks. O exercício físico no tratamento da depressão em idosos: revisão sistemática. Rev Psiquiatr RS. 2007;29(1):70-79
http://www.scielo.br/pdf/rprs/v29n1/v29n1a14.pdf